Dossiê do BJC | Os altos preços dos Blu-rays no Brasil

Ao fundo na imagem: colecionadores observando as produtoras passando por dificuldades.

As recentes promoções das lojas online, onde Blu-rays de catálogo estavam sendo vendidos a R$ 9,90, lançamentos a R$ 19,90 e 3D a R$ 39,90, lançou luz em uma questão que incomoda a todos os colecionadores brasileiros: os preços dos Blu-rays em nosso país. A questão é sempre a mesma: se é possível vender os títulos a esses valores, por que os preços de tabela são tão elevados? Neste artigo, analisaremos a questão dos valores praticados em nosso mercado de home video e por que eles não acompanham a evolução da produção nem o aumento da demanda.

O Blu-ray existe desde 2008 e, em seu início, os preços praticados no Brasil eram bem elevados. O fato dos discos serem importados, a pequena base instalada (resultando em baixa tiragem) e a “taxa de novidade” cobrada em toda nova tecnologia explicavam o valor premium pedido pelos disquinhos azuis. Porém, desde então vimos a replicação nacional dos discos, a queda dos preços dos players, o aumento das tiragens, a popularização das TVs Full HD e mesmo assim os preços de tabela sofreram pouquíssima alteração.

Preços fora da realidade

Todos sabemos que o preço de tabela, praticado no lançamento, não cobre apenas o custo efetivo do produto mais uma margem razoável de lucro. Inclui também um extra pelo fato do colecionador poder possuir o filme antes da maioria. Isto é assim no mundo inteiro, mas aqui no Brasil é muito exacerbado por dois motivos: primeiro, os preços são fora da realidade e, segundo, diminuíram muito pouco com o passar do tempo.

Tomemos como exemplo o mercado norte-americano. Lá também existem os preços de tabela, mas com um porém: dificilmente eles são praticados, mesmo no lançamento. Peguemos como exemplo o filme Transformers: A Era da Extinção. O preço de tabela para este título na versão 2D é de US$ 39,99; entretanto, mesmo na pré-venda, o valor cobrado na maioria das lojas é de US$ 19,99. Enquanto isso, em nosso país o valor de tabela de R$ 79,90 será efetivamente o cobrado na pré-venda, no lançamento e por pelo menos um mês após o lançamento.

Além disso, os valores de tabela estão longe de refletir a realidade de nosso país. Novamente, comparemos com os EUA: lá, o salário mínimo federal é de US$ 7,25 por hora. Um trabalhador que receba o mínimo terá que trabalhar 2 horas e 45 minutos para adquirir o BD do filme mais recente da franquia Transformers (curiosamente, a mesma duração do filme). Já aqui, onde o salário mínimo é de R$ 724 mensais, o trabalhador que receber o mínimo terá que trabalhar 24 horas e 17 minutos para adquirir a edição nacional do mesmo filme. Ou seja, lá um trabalhador braçal consegue comprar um BD no lançamento; aqui, isso é praticamente impossível.

3Duro na queda

Percebam que ainda não mencionamos os títulos 3D. Com o Blu-ray 3D, a política irreal de preços é mais exacerbada; os títulos custam mais caro ainda e os preços demoram bem mais tempo para baixar a patamares um pouco mais aceitáveis.

Utilizando as tabelas de preços das listas de lançamentos publicadas pelo BJC é possível analisar a diferença de preços entre os Blu-rays 3D e 2D à venda no Brasil. Pegamos alguns títulos das grandes produtoras lançados no segundo semestre de 2013 e comparamos com outros títulos lançados (ou a serem) em setembro e outubro deste ano. Vejamos os dados:

Percebam que, em alguns casos, a diferença de preços diminuiu de um ano para outro, mas esta queda é ilusória, pois em 2014 o preço de tabela dos BDs 3D permaneceu o mesmo, enquanto o dos 2D aumentou.

Enquanto isso, nos EUA um filme em 3D custa, em média, 25% a mais do que a mesma edição apenas em 2D. A diferença é que esta comparação se dá com os preços de tabela; como já dissemos, dificilmente esses valores são utilizados, mesmo no lançamento. Ou seja, esta diferença acaba sendo menor ainda, incentivando o consumidor a adquirir a edição 3D.

Já aqui ocorre o contrário: além da diferença (real) entre as edições 3D e 2D ser maior, ainda existe o problema do double dip: edições 3D lançadas de forma incompleta (sem disco de extras ou apenas com a versão 3D no disco), obrigando o colecionador a adquirir as duas edições (3D e 2D) para terem acesso ao conteúdo completo do filme. Nos EUA, as edições 3D são combos completos, com 3D, 2D, extras, DVD e cópia digital, estimulando o consumidor a comprar este tipo de título.

As produtoras menores têm uma política diferente com relação ao 3D. Primeiro, costumam apenas lançar edições 3D + 2D no mesmo disco (acabando com o double dip); segundo, essas edições saem inicialmente para o mercado rental a um preço mais elevado (usualmente R$ 89,90), para somente depois entrarem para o mercado sell-through por preços menores (normalmente R$ 39,90), os mesmos cobrados nas edições “apenas 2D”.

É fácil perceber que os BDs 3D das independentes são mais baratos, embora lidem com tiragens mais baixas (ou seja, com custo unitário superior) e com a autoração local dos discos, enquanto os títulos das majors normalmente se utilizem de espelhos autorados lá fora e replicados em diversos países, diluindo ainda mais os custos. Como então explicar esta discrepância?

O problema não deve ser a base instalada. Embora não tenha exatidão científica, as pesquisas do BJC a respeito de equipamentos 3D mostram que há uma tendência de crescimento no número de colecionadores que possuem player e TV 3D. Na pesquisa de 2011, apenas 14,1% dos leitores possuía esses equipamentos; em 2014, até o presente momento já são 55,41%. Por que então os preços dos discos não caem? Por que não tentar aumentar as vendas dos títulos em 3D diminuindo de forma real a diferença de preço entre os títulos? Ganância? Falta de visão? São muitas perguntas, mas poucas respostas.

Séries em Blu-ray: um caso sério

Se os preços de BDs 3D já são pra lá de elevados, o que dizer das séries em Blu-ray?

Sabemos que o “custo Brasil” interfere nos preços praticados nas séries de TV comercializadas no Brasil. Existe uma contribuição denominada Condecine, que é mais um meio de nosso querido governo tomar dinheiro da iniciativa privada sem dar nada em troca. A Condecine é cobrada tanto para filmes quanto para séries; porém, enquanto filmes pagam uma taxa única (R$ 3000 para obras acima de 50 minutos direcionadas ao mercado de vídeo doméstico), as séries são cobradas por episódio (R$ 750 para o mercado de home video). Basta fazer as contas para perceber que a tungada é das grandes. Detalhe: o registro deve ser renovado a cada 5 anos. Esta é a explicação “oficial” para o alto preço cobrado pelas séries em nosso país.

Mas existe um porém: a mídia utilizada (denominada na tabela da Ancine de “suporte”) não altera o valor da Condecine. Então por que as séries em Blu-ray custam tão mais caro que a mesma série em DVD?

Mais uma vez, fizemos um comparativo com os valores de tabela de séries em Blu-ray e em DVD. Vejamos:

Como podemos perceber, os preços variam (e muito) dependendo da série. Enquanto Drácula tem uma diferença pequena (tanto em percentual quanto em valor real), Downton Abbey em Blu-ray custa o dobro da edição em DVD! Once Upon A Time conseguiu a proeza de custar mais que o dobro em Blu-ray do que em DVD. Como a Condecine é a mesma, qual seria a explicação para existirem tantas diferenças? Seria a tiragem?

Mas daí entramos em um círculo vicioso. Um box de série em Blu-ray custando o dobro significa que mesmo o mais ardoroso fã de séries em HD acabará adquirindo o box em DVD (afinal, dinheiro não é capim). O box naturalmente vai encalhar, as tiragens não vão crescer, o preço continuará alto, as vendas baixas, a produtora terá prejuízo e o colecionador privado de possuir suas séries favoritas em um formato superior.

Daí não é de surpreender o fato de que, ao contrário do que ocorre na América do Norte e Europa, o DVD ainda vender muito bem aqui no Brasil. Isto também alimenta o círculo vicioso de preços, pois mantém os dos DVDs mais altos do que o normal e impede que os dos Blu-rays caiam a níveis decentes.

Concluindo

Temos plena consciência de que o mercado brasileiro de home video tem muitos obstáculos. Tributação injusta, pirataria, concorrência com TV e internet, etc. Porém, nada justifica os preços de tabela irreais, a diferença de preços entre BDs 3D e 2D (que impede que o 3D decole de vez) e a política de preços absurda para as séries em Blu-ray, que acabam matando o formato para este tipo de conteúdo.

Afinal, se é possível vender (com lucro) Blu-ray 3D por 40, 50 Reais, por que vendê-los a 90, 100 Reais? Se é possível vender boxes de séries em Blu-ray R$ 10 a mais que em DVD, por que cobrar R$ 100 ou mais? As produtoras precisam entender que o consumidor brasileiro gosta de qualidade, mas não está disposto a pagar preços absurdos para tê-la.

O BJC sempre foi favorável a preços justos, de forma que lojas e produtoras tenham seus lucros, mas sem sacrificar quem está na outra ponta. Basta ver que é só cobrar o correto que o colecionador compra. E muito!

EM TEMPO: o BJC entrou em contato com as principais empresas de home video no Brasil para ouvir a opinião delas a respeito do assunto. A Paramount-Universal não quis se pronunciar. Fox-Sony até o momento da publicação da matéria não enviou a resposta e a Disney simplesmente ignorou a nossa solicitação.

Link direto para as promoções em Blu-ray no Submarino:

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Sobre o autor

Alexandre Prestes era rato de locadora nos anos 80 e nunca se animou a comprar VHS por ser uma mídia de baixa durabilidade. Fã incondicional da boa música, iniciou em 2003 sua coleção com DVDs musicais; só a partir de 2005 passou a comprar filmes e séries. 2009 foi o ano no qual começou a colecionar filmes em Blu-ray, sendo um entusiasta do formato. A coleção continua crescendo (e o espaço diminuindo), cada vez mais a favor de títulos com maior qualidade técnica e fartura de material adicional.