INACREDITÁVEL! Replicadoras brasileiras se recusam a fabricar Blu-ray de Azul é a Cor Mais Quente

Capa da edição em Blu-ray nos EUA pela Criterion

Vencedor da Palma de Ouro de Cannes em 2013, Azul é a Cor Mais Quente conta a história de Adèle, uma garota de 15 anos que se apaixona por Emma, uma garota de cabelos azuis, e descobre a mulher dentro de si mesma. O filme causou polêmica, não só por enfocar o amor homossexual, mas também por suas gráficas cenas de sexo e pelas reclamações das atrizes principais e da equipe de filmagem com relação à postura autoritária do diretor Abdellatif Kechiche durante a realização do longa. Mas a maior polêmica só poderia acontecer aqui no País do Carnaval.

A Imovision, produtora responsável pelo lançamento do filme aqui no Brasil, postou em sua página no Facebook a seguinte nota:

O lançamento do DVD de Azul é a Cor Mais Quente se aproxima, mas temos uma péssima noticia para os fãs do filme: as empresas brasileiras produtoras de blu-ray se negam a produzir o filme devido ao seu “conteúdo”.
Ainda estamos batalhando para reverter essa situação, mas não conseguimos acreditar que tratariam dessa forma a história de amor mais linda de 2013, vencedora da Palma de Ouro no Festival de Cannes e diversos outros prêmios.
O que vocês acham disso?

Com esta nota inicial, as primeiras reações foram de revolta (com o fato) e de desconfiança (com a produtora). Motivos para isto não faltavam: o fato do DVD ser produzido normalmente; o absurdo da situação (inédita no mercado de home video) e a falta de informações a respeito. Teve quem achasse que isto era uma manobra da Imovision para não lançar o Blu-ray do filme e se isentar das críticas dos consumidores.

Imediatamente, a Imovision afirmou que a empresa “nunca usou artifícios ou plantamos noticias para atrair consumidores”. Também disse que o DVD seria produzido porque encontraram uma empresa terceirizada que aceitou replicar os discos; senão nem o DVD seria lançado. Esta empresa (cujo nome não foi revelado) não replica Blu-rays.

Logo depois, pressionada pela reação das pessoas nas redes sociais, a assessoria de imprensa da Imovision enviou a seguinte nota oficial:

NOTA OFICIAL: BLU-RAY DE “AZUL É A COR MAIS QUENTE”

“Depois das dificuldades encontradas para a replicação do DVD do filme “Azul é a Cor Mais Quente”, a Imovision procurou a empresa brasileira Sonopress, que replica seus títulos em Blu-ray, mas a mesma se recusou e ainda alegou que nenhuma outra empresa faria o serviço.

A Imovision então contatou a SONY DADC, que também se recusou a produzir o Blu-ray do filme, por considerar o conteúdo inadequado devido às cenas de sexo, apesar do filme já ter sido classificado para maiores de 18 anos.

O filme, vencedor do Festival de Cannes, só poderá ser reproduzido em DVD até o momento. A Imovision, distribuidora do filme, lamenta o fato e busca alternativas para a replicação do filme em Blu-ray no âmbito nacional.”

Além disso, o presidente da Imovision confirmou o boicote em entrevista para O Globo. Ou seja, o assunto é sério. Seríssimo.

Até agora, a Sonopress  respondeu ao BJC que “não tem ninguém aqui no momento para falar sobre isso” e a Sony DADC informou que estava em reunião (provavelmente para analisar o assunto). Na reportagem de O Globo, a Sonopress afirma que o boicote não tem motivação religiosa, mas sim que o contrato que eles têm com empresas como Disney e Microsoft impede que a empresa replique Blu-rays com “cenas explícitas”. Se isto se confirmar, é o maior absurdo de todos os tempos.

Primeiro, porque uma replicadora não é responsável pelo conteúdo dos discos que ela produz. A obrigação das replicadoras é fabricar um certa quantidade de discos no prazo determinado em contrato e nada mais. A responsabilidade pela autoração não é das replicadoras, nem o fornecimento do conteúdo dos discos.

Segundo, é ridículo que clientes possam ter ingerência sobre o que terceiros podem ou não produzir nas replicadoras brasileiras. Isso abre um precedente perigoso, onde companhias se utilizam de seu poderio econômico para prejudicar concorrentes e/ou limitar o acesso dos consumidores a obras que sejam contrárias às políticas de empresas, igrejas ou partidos políticos. Um verdadeiro atentado à liberdade.

Além disso, a desculpa não cola, pois filmes com cenas eróticas já foram e ainda serão lançados em Blu-ray no Brasil; por exemplo: Último Tango em Paris (replicado pela Sony DADC), Anticristo (também replicado pela Sony DADC), Ninfomaníaca – Parte 1 (a ser replicado pela própria Sonopress) e Calígula (replicado pela falecida Videolar). Aparentemente, sexo por si só não é o problema.

Será então que o motivo do boicote é o fato dessas cenas ocorrerem entre pessoas do mesmo sexo? Afinal,  mesmo sem erotismo, são poucos os filmes com personagens principais gays lançados em Blu-ray no Brasil. Monster – Desejo Assassino, Filadélfia, Milk – A Voz da Igualdade, entre outros, existem em nosso mercado apenas em DVD; há poucas exceções, como O Segredo de Brokeback Mountain ou Priscilla: A Rainha do Deserto.

Se o boicote for por causa das cenas de sexo, é hipocrisia. Hoje em dia, qualquer um tem acesso a sexo na Internet, nas bancas de jornal e até na televisão aberta, nos BBBs da vida. Mas replicar em Blu-ray um filme que será vendido apenas para maiores de 18 anos não pode? Que coisa ridícula! E se o boicote for por causa do conteúdo homossexual, é preconceito mesmo. Se você não quer ver filmes com gays, não assista nem compre filmes assim. Mas não impeça o acesso de outras pessoas a esses filmes.

Seja como for, esperamos que a Imovision consiga uma replicadora (alô AMZ!) que não seja refém do puritanismo de alguns e consiga lançar o Blu-ray de um dos melhores filmes de 2013. Todos os cinéfilos e colecionadores adultos e desprovidos de preconceito merecem ter acesso a esta obra em alta definição.

Link para as pré-vendas na Saraiva:

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Sobre o autor

Alexandre Prestes era rato de locadora nos anos 80 e nunca se animou a comprar VHS por ser uma mídia de baixa durabilidade. Fã incondicional da boa música, iniciou em 2003 sua coleção com DVDs musicais; só a partir de 2005 passou a comprar filmes e séries. 2009 foi o ano no qual começou a colecionar filmes em Blu-ray, sendo um entusiasta do formato. A coleção continua crescendo (e o espaço diminuindo), cada vez mais a favor de títulos com maior qualidade técnica e fartura de material adicional.