Dossiê do BJC | Os mistérios da Brookfun/Brookfilm

Em maio deste ano, o BJC publicou postagem referente a uma enxurrada de lançamentos (interessantíssimos, por sinal) da desconhecida produtora Brookfun. Sete meses depois, nenhum dos produtos da empresa pode ser adquirido em lojas online e físicas. Na busca de maiores informações a respeito, nos deparamos com uma miríade de fatos estranhos, os quais relataremos neste artigo.

Não tem na loja, mas tem no Mercado Livre

Desde o momento em que publicamos a lista de lançamentos da Brookfun, entramos em contato diversas vezes com a empresa para saber os motivos da demora em disponibilizar seus produtos nas lojas, mas sempre recebemos como resposta “em breve eles estarão disponíveis, mas a negociação é difícil”. Por isso, a surpresa foi grande quando soubemos que alguns dos títulos anunciados pela Brookfun estavam sendo vendidos no Mercado Livre. Mais precisamente: a própria Brookfun estava vendendo seus produtos utilizando um perfil no site de vendas.

Para sermos corretos, é possível encontrar os produtos da Brookfun listados em algumas lojas como 2001 Vídeo ou A Poderosa; entretanto, a imensa maioria dos títulos se encontra indisponível. Ora, se os produtos estão disponíveis para envio pelo Mercado Livre, por que não são vendidos em lojas? Mesmo uma Winer Disk (que vende séries com conteúdo copiado da televisão) ou a Continental (com seus títulos pra lá de suspeitos) vendem seus produtos em lojas conhecidas. Qual seria o motivo para o mesmo não ocorrer com a Brookfilm? Não há uma resposta final para esta pergunta, mas talvez consigamos uma pista analisando um dos produtos disponíveis pelo Mercado Livre.

O Grande Dragão Branco: CD no envelope e mídia BD-R

Da lista prometida para maio, um dos títulos mais aguardados era, sem dúvida nenhuma, o clássico das artes marciais O Grande Dragão Branco. O filme do Van Damme, pertencente à MGM, nunca foi lançado oficialmente no Brasil em DVD ou Blu-ray pela Fox, detentora dos direitos do catálogo da MGM. Nem mesmo a Flashstar, que havia licenciado alguns títulos da MGM, conseguira lançar o filme no mercado nacional. A Brookfun se tornou, então, a última esperança dos fãs do baixinho belga.

Como os títulos da Brookfun não estão à venda em lojas, alguns colecionadores resolveram arriscar a compra pelo Mercado Livre. Logo, surgiram os primeiros reviews e as informações sobre a edição eram boas e ruins ao mesmo tempo. Vejam, por exemplo, os reviews abaixo:

Canal Wolf Blu Ray

Canal Oswaldo Potenza

Primeiro, o lado bom. A edição, dita “de luxo limitada”, vem com 2 discos (um BD com o filme e um CD com a trilha sonora), sobrecapa (luva) de papel e arte interna, melhor que muito lançamento de major. Além disso, a imagem do filme aparentemente é boa e a dublagem em português é a clássica. Faltam extras melhores e aparentemente a trilha original não é HD, mas pelo preço cobrado (R$ 39,90) parece um bom conjunto, não é?

Porém, nem tudo que reluz é ouro.

Ao invés do CD da trilha sonora vir dentro do estojo do Blu-ray, encaixado em uma bandeja interna, ele vem em um envelope de papel genérico. Para completar, a mídia utilizada não é industrial, mas sim um CD-R printable!

Como se isso não fosse o suficiente, basta examinar o BD que vem na edição para perceber, por conta da cor preta característica, que também não foi usada mídia industrial, mas sim um BD-R printable!

A princípio, usar mídias graváveis não quer dizer necessariamente que as edições sejam piratas. Por exemplo, a Warner dos EUA, através do selo Warner Archive Collection, disponibiliza parte de seu acervo em DVDs fabricados sob demanda (MOD), utilizando mídias DVD-R. Contudo, existem alguns detalhes interessantes que pesam contra a Brookfun. Ao oferecer filmes em Blu-ray por este selo, a Warner não utiliza mídia BD-R, mas sim mídia industrial replicada em quantidades menores. Além disso, a Warner é uma empresa pra lá de conhecida, o que não é o caso da Brookfun.

Para aumentar ainda mais a quantidade de pulgas atrás da orelha do colecionador, há uma estranha coincidência. Observando o perfil da Brookfun no Mercado Livre, é possível notar que a empresa não efetua apenas vendas, mas também compra produtos no ML. Se consultarmos as qualificações da Brookfun como compradora, vemos uma interessante lista de produtos: mídias BD-R printable, papel glossy, estojos para DVD e Blu-ray, gravador de Blu-ray, caixas de papelão, envelope bolha e, principalmente, edições importadas de filmes que fazem parte do catálogo da Brookfun!

Com este material, é possível fazer o seguinte: utilizar os BDs importados para retirar o áudio e o vídeo; o gravador e as mídias para produzir os discos; os estojos para guardar os discos; o papel fotográfico para imprimir as capas; as caixas e envelopes para mandá-los para os clientes. Isto também não significa que as edições são piratas, mas indica que a Brookfun estaria operando de modo amador (no sentido estrito da palavra). Empresas normalmente não compram insumos no Mercado Livre, mas sim de fornecedores estabelecidos, até para conseguir melhores preços e condições de pagamento. O que nos leva à seguinte questão…

Afinal, quem é a Brookfun?

No site oficial não é possível encontrar muitas informações a respeito da empresa. Não há endereço, telefone, nem mesmo e-mail; apenas um formulário web é oferecido para contato com a produtora. Endereço e telefone só aparecem na página da empresa no Facebook. E é só.

Esta escassez de informações não é muito animadora. A desconfiança aumenta quando buscamos o endereço no Google Maps e temos uma surpresa: a sede da Brookfun fica em cima de uma auto elétrica!

Aqui no Brasil, é comum pequenas empresas colocarem em seu contrato social endereços em lugares onde os impostos são menores. Entretanto, quando este endereço é o mesmo divulgado em um canal oficial da empresa, significa que não é meramente uma manobra fiscal. Em tempos onde escritórios virtuais e serviços de coworking são algo factível até para microempresas, é estranho utilizar o piso superior de uma oficina como sede de sua companhia.

Falando em fatos estranhos, o histórico do domínio da Brookfun na internet é recheado de confusões. Primeiro, o mais óbvio: por que utilizar o domínio brookFILM ao invés de brookFUN? Antes de responder esta pergunta, é necessário responder outra: qual é o nome da empresa? O site oficial, embora esteja sob o domínio brookfilm.com.br, utiliza o logo Brookfun. Já a página no Facebook, a empresa se chama Brookfilm e o logo também é Brookfilm. Nossa, que bagunça!

Somente no verso dos produtos é possível descobrir que a empresa se chama mesmo Brookfun, inclusive no registro do CNPJ.

Mas a confusão não acaba aí. Consultando o domínio brookfilm.com.br no Whois do Registro.br, é possível notar que o domínio não está registrado em nome da pessoa jurídica Brookfun, mas sim em nome de uma pessoa física! Isto não faz o menor sentido! Afinal, se você vai criar um domínio para uso comercial, por que não registrá-lo no nome da empresa?

Olhando com mais atenção, percebemos que o e-mail de contato fornecido é do domínio masterpiecehd.com.br. Para refrescar a memória do leitor, a Masterpiece HD foi aquela que, em 2011, anunciou Ultraman e Spectreman em DVD e Blu-ray. Na hora, um monte de gente ficou empolgada, mas o tempo passou, esses títulos ninguém sabe, ninguém viu e o site da empresa foi retirado do ar.

Ora, ora, um padrão se delineia, não é mesmo?

E olhem só que coisa interessante: quando fizemos a consulta sobre brookfun.com.br, adivinhem quem registrou o domínio? Ela mesmo, a Masterpiece!

E o padrão se repete com a Masterpiece: o domínio está registrado em nome de pessoa física (mesmo com a empresa possuindo CNPJ) e há indícios de estar atrelado à outra empresa (no caso, a London Filmes). Para quem não se lembra, a London Filmes / Works Editora era uma produtora sediada em Jundiaí (como a Brookfun) que lançou vários DVDs de terror, artes marciais e outros gêneros na metade dos anos 2000.

Os produtos da empresa, fora um ou outro deslize, eram de boa qualidade, fabricados pela Microservice e, até onde se sabe, totalmente legalizados. Infelizmente a empresa encerrou atividades em circunstâncias nebulosas (com as consquências de sempre, em se tratando de Brasil).

Resumo da ópera

Tanto a Masterpiece quanto a Brookfun/film são tentativas frustradas de reconstruir o legado da finada London/Works. A iniciativa, em tese, é absolutamente louvável. Existe um mercado sedento pelos títulos que foram prometidos tanto pela Masterpiece quanto pela Brookfun, uma demanda que dificilmente é atendida pelas majors e que passou a ser ignorado pelas produtoras menores. Certamente, quem se propuser a atender este nicho com o carinho que merece terá todo o apoio dos consumidores.

Mas para isso, é preciso que os responsáveis mantenham os pés no chão, invistam aos poucos em um catálogo de qualidade, ajam de forma profissional e, principalmente, ouçam seu público. Porque se for para continuar com as promessas não cumpridas é melhor desistir.

ATUALIZADO 14/12 (por Jotacê)

Como sempre acontece aqui no BJC, oferecemos para a Brookfun/Brookfilm o direito de resposta a respeito dos questionamentos levantados na matéria. Até o momento não há manifestação formal da empresa sobre o que foi publicado. Também nos colocamos a inteira disposição para qualquer esclarecimento que seja necessário.

Link para as pré-vendas na Saraiva:

 

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Sobre o autor

Alexandre Prestes era rato de locadora nos anos 80 e nunca se animou a comprar VHS por ser uma mídia de baixa durabilidade. Fã incondicional da boa música, iniciou em 2003 sua coleção com DVDs musicais; só a partir de 2005 passou a comprar filmes e séries. 2009 foi o ano no qual começou a colecionar filmes em Blu-ray, sendo um entusiasta do formato. A coleção continua crescendo (e o espaço diminuindo), cada vez mais a favor de títulos com maior qualidade técnica e fartura de material adicional.