As trapalhadas da PlayArte com a 2ª temporada de The Walking Dead em Blu-ray

A segunda temporada de The Walking Dead nem ao menos saiu no Brasil, mas já temos motivos para preocupação. O lançamento em home video da série da AMC em nosso país é responsabilidade da PlayArte, que executou um trabalho decente com a primeira temporada, apesar da luva prometida para a edição em Blu-ray ter ficado apenas na promessa. Entretanto, parece que a PlayArte resolveu meter os pés pelas mãos e esculhambar com a 2ª temporada da série. Vejamos os porquês:

A novela da cabeça zumbi

Desde que foi anunciado o lançamento da 2ª temporada em edição limitada com cabeça zumbi nos EUA, as lombrigas colecionísticas de muitos leitores se atiçaram. Com a PlayArte divulgando o início da pré-venda da 2ª temporada em seu perfil no Facebook, inevitavelmente alguém perguntaria sobre a cabeça zumbi. A resposta dada foi surpreendente:

Como seria de se esperar, a collectorsfera entrou em polvorosa, sonhando com uma edição brasileira comparável às gringas. Entretanto, para quem já está calejado com as bobagens cometidas pelas produtoras nanicas (como este que vos escreve), a esmola parecia muita e a desconfiança elevada. Dito e feito: alguns dias depois, novamente no Facebook, a PlayArte solta a seguinte nota:

Ok, PlayArte. Para facilitar a vida de vocês, listei os erros cometidos nesta pequena nota:

  • Se não vão vender, para quê criar uma falsa expectativa no consumidor? Foi a mesma coisa com a luva do Blu-ray da 1ª temporada: não se sabia se ia ter, depois ia ter e acabou não tendo. Sabe qual impressão que é passada para nós? De que falta planejamento e organização na PlayArte. Parece que lá as coisas são anunciadas na empolgação, para logo depois serem desmentidas. Já passou da hora de agirem de forma mais profissional e não prometerem o que não vão cumprir.

  • Essa conversa mole de que as cabeças “foram produzidas em pequena escala, e por isso existem poucas peças à disposição” não convence. Itens realmente produzidos em pequena quantidade (como a lata Back To The Future, o SteelBook A Trip To The Moon ou a lata Hugo Cabret) se esgotam logo na pré-venda, o que não é o caso da cabeça zumbi. Só para provar que isso é papo furado, fiz uma simulação de compra de 999 unidades da cabeça na Amazon e, adivinhem só, foi possível fechar o pedido! Sejam honestos e assumam que não trarão a cabeça porque seria inviável praticar um preço competitivo por conta dos impostos abusivos cobrados aqui.

  • O uso da cabeça zumbi de forma promocional é uma ação absolutamente inócua, pois justamente reforça o abismo de qualidade que separa o gift set americano da edição pé-de-boi brasileira. Ou seja, divulgam uma edição que ninguém poderá comprar em lojas brasileiras, em vez de melhorarem o produto que, de fato, trará lucros à empresa.

A economia de discos

Na primeira temporada, com 292 minutos divididos em 6 episódios, bastavam apenas 2 discos para comportar todo este conteúdo sem perda de qualidade. Mas na segunda temporada, com 578 minutos divididos em 13 episódios, a necessidade de mais de 2 discos é bastante óbvia. Provando este ponto, temos a edição americana com 4 discos, a britânica com 3 discos e a francesa também com 3 discos.

Porém, desde que se iniciou a pré-venda da segunda temporada brasileira, em todas as lojas online se via na descrição, tanto na versão em DVD quanto em Blu-ray, de apenas 2 discos. Seria um erro? Infelizmente, não. No próprio perfil do Facebook, a PlayArte confirmou que utilizarão apenas 2 discos BD-50 na edição a ser lançada:

Há algo muito errado nesta conta da PlayArte. Para manter um bom bitrate e preservar a qualidade dos episódios, em séries com episódios de 45 minutos de duração (caso de Walking Dead) se costuma colocar 4 episódios por disco, tanto em BD quanto em DVD. Assim, temos 4 discos, com o último disco contendo apenas um episódio e o grosso do material extra (é o caso da edição americana). Forçando um pouco, é possível colocar 5 episódios por disco, permitindo que se use 3 discos (caso das edições do Reino Unido e França); neste caso, como alguns extras não foram liberados para fora dos Estados Unidos (a saber, os webisodes e os comentários em áudio), é possível espalhar o restante dos extras nos 2 últimos discos. Agora, colocar todo este material em apenas 2 discos irá, sem dúvida alguma, comprometer o resultado audiovisual da obra.

A desculpa da PlayArte de justificar os 2 discos por causa do uso de mídias de camada dupla é risível. Basta prestar atenção e ver que as edições internacionais também utilizam mídias BD-50 e ainda assim utilizam mais de 2 discos. Para efeito de comparação, peguemos a 3ª temporada de Prison Break. Com seus 559 minutos divididos em 13 episódios, é muito similar à 2ª temporada de TWD. Em seu lançamento em Blu-ray, ela foi dividida em 4 discos (3 BD-50 e 1 BD-25), com excelente qualidade de imagem e som. Vale lembrar mais um detalhe: a quantidade de extras de Prison Break é bem menor que o disponível em TWD.

Não existe milagre: é impossível conceber que se consiga espremer quase 700 minutos de conteúdo em apenas 2 discos sem apelar para alta compressão, cortes ou troca das trilhas DTS-HD MA sem perdas por Dolby Digital lossy. Isso tudo cheira à famosa economia besta, visando minimizar o custo e manter as margens de lucro elevadas. Falando nisso…

Tá tudo estranho, é tudo caro

A primeira temporada lançada pela PlayArte em Blu-ray tinha, como preço inicial, R$ 89,90. Já não é um preço baixo, tendo em vista que eram apenas 2 discos em um estojo plástico sem luva nem nada. Porém, nesta segunda temporada, com a mesma quantidade de discos e a mesma apresentação, estão cobrando R$ 109,90. Exagero, não? Se for para cobrar um preço premium, que entreguem um produto premium e justifiquem para o consumidor o custo maior. Agora, aumentar o preço sem agregar nenhum diferencial é claramente um esforço para aumentar a lucratividade do produto.

Para efeito de comparação, peguemos Planeta Humano, série da BBC lançada pela independente LogOn com 3 discos, em uma embalagem Digistak de Blu-ray e ao preço de lançamento de R$ 89,90. Tal como TWD, é um produto de tiragem baixa, sem o apelo dos blockbusters, focado a um mercado de nicho. Porém, o investimento em uma apresentação superior melhora, aos olhos do colecionador, a percepção de valor do produto, fazendo com que se gaste mais dinheiro em troca de um produto melhor acabado. Se a LogOn, que é uma produtora de pequeno porte, conseguiu aplicar este princípio (e, certamente, auferir lucro), por que a PlayArte não consegue?

Por fim, comparemos os preços da edição brasileira com as edições estrangeiras (conversões feitas com a cotação de 16/08/2012):

País

Edição

Produtora

Nº de discos

Preço

TWD_US

Starz/Anchor Bay

4

US$ 49,96

(R$ 100,96)

TWD_Head

Starz/Anchor Bay

4

US$ 64,99

(R$ 131,33)

TWD_UK

Entertainment One

3

£ 28,99

(R$ 92,19)

TWD_FR

Wild Side Video

3

€ 34,99

(R$ 87,36)

sweden-flag

TWD_SW

Svensk Filmindustri

3

349 kr

(R$ 105,33)

brazil-flag

TWD_BR

PlayArte

2

R$ 109,90

Percebam que, excetuando a edição especial com a cabeça, a edição nacional é uma das mais caras do mundo, mesmo vindo com menos discos e tendo apresentação inferior.

O que a PlayArte tem a dizer?

Em contato via e-mail com o BJC, o Coordenador de Marketing para Home Video da PlayArte Thiago Cardim praticamente repetiu o que foi falado pela empresa no Facebook; ou seja, tudo aquilo que acabamos de refutar logo acima.

Concluindo

É preciso que a PlayArte saia do mundo das planilhas de cálculo e das filigranas jurídicas e entenda que o público que consome The Walking Dead não é aquele casual, que compra por impulso só porque viu um box em uma Saraiva ou Cultura da vida e achou bonitinho. Quem deseja ter TWD na coleção é um consumidor mais informado, muito mais exigente, menos dependente de legendas em português e que não se furta de adquirir produtos no exterior em busca de um nível de qualidade superior.

Portanto, é necessário à PlayArte compreender que o colecionador que realmente deseja ter a cabeça zumbi na estante não se contentará com uma ação promocional em lojas brasileiras; ele vai comprar na Amazon. Que o consumidor deste tipo de produto sabe que não é possível colocar tamanha quantidade de material em alta definição em apenas 2 mídias BD-50 sem que haja algum tipo de perda. Que o fã entende que 110 reais por 2 discos em um estojo plástico sem sobrecapa é um preço abusivo, sendo que lá fora se paga até um pouco mais caro, mas que se consegue melhor qualidade técnica e visual.

Ninguém compra lá fora porque gosta de sofrer com a demora e com os impostos. Nós compramos lá fora porque não temos aqui no Brasil produtos com uma relação justa entre custo e benefício. Imagino que muitos leitores do BJC aproveitaram a promoção da 1ª temporada a R$ 69,90 para adquirir o produto da PlayArte, uma vez que a qualidade técnica do produto era a mesma que se obtinha lá fora, mesmo pecando no quesito embalagem. Porém, saindo a 2ª temporada do jeito que vai sair, jamais poderemos recomendar a compra, mesmo que entre futuramente em promoção, pois é um item que não se destaca nem na apresentação, nem no conteúdo.

Empresas como a PlayArte lançam edições comuns, com deficiências técnicas e por preços elevados e não entendem por que tais itens encalham ou vendem menos do que o imaginado. Sabemos que o mercado de home video em nosso país é complicado, com a pirataria, os impostos, a péssima infraestrutura e a falta de cultura do público em geral. Mas não podemos nivelar por baixo e batermos palmas para produtos caros e de baixa qualidade, só porque alguém se digna a lançar por aqui. Nós do BJC lutamos sempre para que a voz do colecionador seja ouvida e estamos prontos para elogiar as produtoras quando elas fazem por merecer. Basta apenas que elas nos escutem.

Se você deseja expressar à PlayArte, de forma civilizada e educada, toda a sua insatisfação com este produto, utilize os seguintes canais:

 @grupoplayarte

 GrupoPlayArte

 www.playarte.com.br/fale

 (11) 5053-6996

The Walking Dead em Blu-ray na Amazon dos EUA (sem PT-BR):

The Walking Dead em Blu-ray na Animazon (sem depósito antecipado do imposto):

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Sobre o autor

Alexandre Prestes era rato de locadora nos anos 80 e nunca se animou a comprar VHS por ser uma mídia de baixa durabilidade. Fã incondicional da boa música, iniciou em 2003 sua coleção com DVDs musicais; só a partir de 2005 passou a comprar filmes e séries. 2009 foi o ano no qual começou a colecionar filmes em Blu-ray, sendo um entusiasta do formato. A coleção continua crescendo (e o espaço diminuindo), cada vez mais a favor de títulos com maior qualidade técnica e fartura de material adicional.