BD Resenha: Akira (Brasil)

Akira é uma animação japonesa escrita e dirigida por Katsuhiro Otomo, sendo baseada no mangá do mesmo autor. Lançada em 1988, esta obra foi um marco da animação como um todo, graças ao visual estonteante, retratando uma Tóquio em um futuro distópico pós-guerra nuclear, e à fluidez de movimentos, conseguida com o uso de mais de 160 mil células de animação.

Akira apareceu pela primeira vez no mercado brasileiro de home video em 1992, quando a Europa Filmes lançou a obra em VHS. Em 2001, o filme passou por uma restauração completa bancada pela Pioneer e foi relançado no exterior, mas não aqui. Apenas em 2008 tivemos acesso a este material, quando a Focus Filmes lançou ele em DVD. Tal lançamento foi bastante atribulado: a edição comum vinha com a imagem mutilada em 4×3 Fullscreen; se quisesse obter a obra em seu formato original, o colecionador necessitava adquirir a edição especial com 2 discos (sendo um deles a já citada versão fullscreen). Para compensar, a Focus não decepcionou no quesito apresentação: a edição especial era enluvada e também existia a opção de um kit com lata, contendo uma camiseta e o DVD duplo.

Em 2010, a mesma Focus anunciou o lançamento de Akira em Blu-ray para o dia 22 de setembro. A esperança de que a empresa desta vez acertaria a mão era grande, mas durou pouco: logo foi anunciado que o BD viria apenas com as trilhas de áudio em Dolby Digital, sem a opção de áudio HD. Contudo, este seria apenas um entre os inúmeros problemas desta edição, a qual avaliaremos a seguir.

Informações técnicas

Disco:

  • Formato: BD-25
  • Região: ABC
  • Espaço ocupado (total): 21.354.160.932 bytes (19,88 GB)
  • Bitrate total do disco: 17,86 Mbps

Vídeo:

  • Aspect ratio: 1.85:1
  • Codec: MPEG-4 AVC
  • Duração: 2:04:28.461 (h:m:s.ms)
  • Capítulos: 12
  • Espaço ocupado (filme): 16.668.833.664 bytes (15,52 GB)
  • Bitrate de vídeo: 15,569 Mbps
  • Gráfico de bitrate:

Áudio:

Idioma

Codec

Bitrate

Canais / Amostragem
Inglês Dolby Digital 640 kbps 5.1 / 48 kHz
Japonês Dolby Digital 448 kbps 5.1 / 48 kHz
Português Dolby Digital 192 kbps 2.0 / 48 kHz

Legendas:

  • Português (bitrate: 12,243 kbps)
  • Inglês (bitrate: 74,728 kbps)

Quem se interessar, pode comparar esses valores com os da edição americana da Honneamise, disponíveis no DVD Beaver.

Apresentação

Era de se esperar um tratamento melhor (ou no mínimo igual) ao apresentado na edição especial em DVD. Entretanto, não temos nada de excepcional no Blu-ray: estojo HD Case comum, sem luva nem arte interna. Comparado ao Steelbook britânico, esta edição pé-de-boi empalidece terrivelmente.

Vejam abaixo a arte completa da edição; na lombada, atentem para o detalhe do “NTSC”, que não se aplica em Blu-rays:

O disco é replicado pela Sony DADC e a impressão é lisa e com boa definição. Aqui também vemos os dizeres “NTSC”, que não se aplicam aos discos Blu-ray.

 

Autoração

A autoração do disco é um ponto negativo desta edição. Logo de início, o aviso contra cópias e o logotipo da Focus aparecem borrados, indicando que foi feito um upscale de SD para HD, ao invés de utilizar material nativamente 1080p. Infelizmente, esta é uma prática comum nas produtoras nanicas que deveria ser abolida, pois passa uma impressão de desleixo ao consumidor.

O menu raiz é animado, com um visual interessante, mas tem uma falha grave. Ao tentar selecionar a faixa de áudio em japonês, simplesmente nada acontece; para selecionar esta faixa, só utilizando o menu do player. O mesmo ocorre no menu popup, o que indica que faltou uma revisão melhor no projeto antes de mandar para replicação. Talvez com vergonha por ter cometido erros tão primários, a empresa que autorou o disco não fez a menor questão de assinar sua “obra”.

Vídeo

Temos uma transferência 1080p no aspecto correto de 1:85 e codificada em AVC. A duração é de 124 minutos, que indica o corte original, sem mutilações. O disco é BD-25 e está destravado para todas as regiões. Logo de cara, já saímos perdendo em comparação com as edições estrangeiras, que utilizam disco dupla camada (BD-50). Este é o motivo principal por terem sido removidas as trilhas de áudio HD, pois não haveria espaço suficiente para manter a qualidade de imagem. Tudo isso para economizar R$ 2 por unidade; que vergonha!

Mesmo diante desta deficiência, o resultado final é muito bom, comparável às edições estrangeiras. Inclusive o windowboxing do quadro é o mesmo da transferência americana, sendo provavelmente utilizada a mesma fonte na edição brasileira. Além disso, desta vez não ocorrem erros de frame drop (que causam quadriculado na imagem), ao contrário de outros BDs nacionais como Pacto dos Lobos (da Europa Filmes) e Hellraiser (da própria Focus/Flashstar).

A título de ilustração, seguem algumas capturas (lembrando que são em JPEG com perdas e não representam a qualidade real da imagem; cliquem para ampliar):

Áudio

Temos três faixas de áudio no disco, todas Dolby Digital: Inglês 5.1, Japonês 5.1 e Português 2.0. Obviamente esperávamos faixas Dolby TrueHD como nas edições estrangeiras, mas temos que nos contentar com as mesmas trilhas do DVD, já que falta espaço em disco.

Das três, a faixa com o áudio original em japonês é a melhor. Com um bom impacto sonoro e permitindo um maior envolvimento, graças à uma melhor utilização dos canais de surround, esta é a trilha que mais agrada aos ouvidos. A trilha em inglês, apesar do bitrate ligeiramente superior, se mostra mais anêmica em termos de baixas frequências e a mixagem é menos envolvente. Já a trilha em português, sendo em estéreo, não permite que se alcance os mesmos níveis de imersão proporcionados pelas faixas multicanal e só é recomendada para aqueles que não quiserem mesmo ler legendas.

Outro ponto negativo da trilha em português é a perda de sincronia durante um certo período. Conforme avisado pelo leitor felipegpm, a dublagem da Mastersound perde o sincronismo com a imagem entre 1h 18 min até 1h 42 min. Isto também deveria ter sido observado durante o controle de qualidade da autoração.

Legendas

O disco tem legendas apenas em inglês e português. As legendas em inglês estão num bom tamanho e seguem de perto a dublagem no mesmo idioma. Já as legendas em português são decepcionantes.

Primeiro, pelo tamanho diminuto, que prejudica a leitura. Este problema já havia ocorrido em outro BD da Focus/Flashstar (Rambo IV) e deveria ser sido observado (e corrigido) durante o processo de autoração. Mas o pior aspecto das legendas em português desta edição não é o tamanho, mas sim os erros de sincronia e tradução.

Em alguns trechos do filme, as legendas chegam atrasadas ou adiantadas se comparadas a qualquer uma das três trilhas. Em outros trechos, aparecem legendas mesmo quando não existe nenhum diálogo; novamente, comparando com quaisquer faixas de áudio disponíveis. Parece que não houve nenhum tipo de checagem durante o processo de autoração, o que é algo inaceitável.

Por fim, são cometidos alguns erros de tradução que, se não atrapalham a compreensão da história, incomodam um pouco. Por exemplo, um personagem fala na trilha em inglês discipline (disciplina) e se lê o mesmo na legenda inglesa. Na dublagem, a palavra é traduzida como educação, fazendo sentido no contexto da cena (não tenho conhecimento em japonês para afirmar qual acepção seria a mais precisa). Porém, na legenda em português, tascaram um cale-se que até faz sentido, mas obviamente não é a tradução correta.

Vejam a seguir capturas da mesma cena com as legendas em português e em inglês; percebam a diferença do tamanho da fonte:

Extras

De material extra, temos o mesmo conteúdo da versão em DVD. Como era de se esperar, o conteúdo está em SD, mas ao menos possui legendas (as quais contém alguns erros de grafia; ou seja, faltou revisão):

  • Entrevista com o diretor: uma entrevista de 29 minutos com Katsuhiro Otomo. Informativa, mas um pouco tediosa, por conta da maneira escolhida para conduzir a conversa;
  • Entrevista com os restauradores: a equipe que restaurou Akira explica brevemente (o extra tem apenas 4 minutos) alguns aspectos da restauração. Logo em seguida, temos alguns dos dubladores da trilha em inglês falando sobre a participação deles (3 minutos). Depois deste segmento, temos mais 3 minutos falando a respeito da restauração da trilha sonora e da conversão para 5.1 canais. Em resumo, é mais uma coleção de featurettes do que uma entrevista propriamente dita, o que não tira o valor do material. Mesmo assim, os diversos segmentos  deveriam ter sido incluídos separadamente no menu (como foram os trailers e teasers), no que deve ser mais um vacilo da autoração;
  • Notas de produção: em 48 minutos, este relatório de produção discorre sobre diversos aspectos da obra;
  • Música: aqui temos um featurette de 19 minutos a respeito do processo de composição da trilha sonora e do trabalho do grupo responsável por esta criação, Geinoh Yamashiro Gumi;
  • Teaser 1: auto-explicativo, é um teaser trailer para o filme;
  • Teaser 2: mais um teaser trailer;
  • Trailer 1: um dos trailers de cinema do filme;
  • Trailer 2: outro trailer de cinema;
  • Comercial de TV: TV Spot para a televisão japonesa.

Até que o conteúdo não é ruim; comparado à edição americana, com uma fraca quantidade de extras, a edição brasileira não faz feio. Seria melhor se tivéssemos também os extras americanos nesta edição (storyboard e trailers em 1080p), mas estes certamente não caberiam no disco, por causa da utilização de mídia de camada simples no projeto.

Avaliação geral

Para os padrões atuais, Akira pode parecer sujo e pouco definido se comparado às animações contemporâneas, mas este visual é intencional, foi respeitado em sua restauração e continua sendo um deleite para os olhos, principalmente em alta definição.

É uma pena que a edição nacional da Focus peque em tantos aspectos. Embora a qualidade de imagem e uma razoável quantidade de extras sejam pontos positivos, a ausência de áudio HD, os imperdoáveis erros de autoração e revisão (menu de áudio que não funciona, legendas pequenas, mal sincronizadas e com erros de grafia e tradução) pesam muito contra e fica difícil recomendar este produto.

Quem se virar bem com o inglês e desejar ter o máximo de qualidade em áudio e vídeo, ficará mais satisfeito com a edição americana, mesmo que esta não possua extras relevantes. Quem tiver um player desbloqueado, a edição britânica em steelbook também é uma excelente escolha, pois possui as mesmas qualidades técnicas da edição americana e vem em uma embalagem belíssima.

Para aqueles que realmente tiverem muita dificuldade com inglês, só resta mesmo a edição brasileira, pois este filme não possui opções em nosso idioma em nenhum outro lugar do mundo. Entretanto, os colecionadores devem se preparar para conviver com as deficiências técnicas de algo que poderia ter sido um excelente produto, mas que bateu na trave e saiu pela linha de fundo.

Akira em Blu-ray na Saraiva:

Edições com áudio HD nas Amazons (sem PT-BR):

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Sobre o autor

Alexandre Prestes era rato de locadora nos anos 80 e nunca se animou a comprar VHS por ser uma mídia de baixa durabilidade. Fã incondicional da boa música, iniciou em 2003 sua coleção com DVDs musicais; só a partir de 2005 passou a comprar filmes e séries. 2009 foi o ano no qual começou a colecionar filmes em Blu-ray, sendo um entusiasta do formato. A coleção continua crescendo (e o espaço diminuindo), cada vez mais a favor de títulos com maior qualidade técnica e fartura de material adicional.