BD Resenha: Zombie – 2 Disc Ultimate Edition (EUA)

Um dos mais conhecidos filmes de zumbi, Zombi 2 (também conhecido como Zombie nos EUA e Zombie Flesh Eaters na Grã-Bretanha) é um clássico do horror dirigido pelo mestre italiano Lucio Fulci. Embora os produtores tentassem associá-lo ao filme Despertar dos Mortos (que foi lançado na Itália com o nome Zombi), este filme não é relacionado com a obra de George A. Romero. Ao invés de criar um mero caça-níqueis que se aproveitava do material criado por Romero, Fulci pegou o legado do criador dos zumbis modernos e o levou a um passo além, com efeitos mais sanguinolentos, maquiagem mais realista (cortesia do mago Giannetto de Rossi) e sequências violentas e memoráveis.

Ao longo dos anos, Zombie recebeu inúmeras edições em home video: desde o VHS, passando pelo LaserDisc e chegando ao DVD. Neste formato, a primeira edição foi lançada em 1998 pela produtora americana Anchor Bay. Embora finalmente em widescreen (ao contrário das edições fullscreen dos outros formatos), esta edição não agradou aos fãs por conta de uma transferência ruim e de cortes em algumas cenas, falhas supostamente causadas por defeitos na fonte. Em 2004, a produtora americana Blue Underground lançou um DVD com uma nova transferência direto do negativo original, com boa qualidade de imagem e sem cortes. A edição brasileira em DVD, lançada pela London Filmes / Works com o nome Zombie – A Volta dos Mortos, foi baseada nesta edição da Blue Underground.

Capa do DVD brasileiro de Zombi 2

Em julho de 2011, quando saiu a notícia que a Blue Underground lançaria o filme pela primeira vez em Blu-ray, em uma transferência 2K e com um disco exclusivo de extras, os fãs da obra se animaram. Quando em setembro do mesmo ano descobriu-se que o título viria com legendas em português, a alegria foi maior ainda. Finalmente, em 25 de outubro de 2011, o debut de Zombie em alta definição se concretizou. Iremos a seguir analisar os diversos aspectos desta edição.

Apresentação

A luva da edição é uma O-ring com detalhes em relevo, inclusive com uma textura bem interessante (que infelizmente não é perceptível na foto).

As artes do estojo são as mesmas da luva:

O estojo é um Viva Elite HD Case Slim comum nos títulos americanos; a boa notícia é que não é um daqueles famigerados estojos Eco Case furados e molengas.

Para quem gosta, ainda temos uma arte interna com a lista de capítulos e a famosa cena envolvendo Olga Karlatos e uma lasca de madeira:

A impressão dos discos é lisa e com boa definição:

Vídeo

Temos uma transferência 1080p no aspecto 2:40 e codificada em AVC. O filme em si está no aspecto 2:35 original, o que deixa a imagem com um ligeiro windowboxing (imperceptível ao ser visto na TV). A duração é de 91 minutos, que indica o corte original, sem mutilações. Os discos são BD-50 e estão destravados para todas as regiões.

Quanto à qualidade da imagem em si, não espere encontrar o mesmo resultado que se vê em produções mais modernas e com orçamentos mais robustos. O contraste não é ruim, embora não seja dos melhores nas cenas noturnas. As cores são mais frias se comparadas com o as do DVD, mas como a transferência foi supervisionada pelo diretor de fotografia Sergio Salvati, talvez esta seja a forma correta que Zombie deveria parecer. A granulação é visível, mas não é muito intrusiva. Aqueles que tiverem visão mais apurada podem se queixar de um ligeiro noise na imagem, mas eu particularmente não achei incômodo. Por sinal, esta parece ser uma característica comum em edições em Blu-ray de filmes italianos, não só da Blue Underground mas também de outras produtoras (como as da britânica Arrow).

A título de ilustração, seguem algumas capturas (como não possuo drive de BD, utilizei capturas do mesmo título disponibilizadas pelos sites DVD Beaver e DVD Talk). Lembrando que são em JPEG com perdas e não representam a qualidade real da imagem (cliquem para ampliar):

Mesmo com estas falhas, é a melhor apresentação que este filme possui até o momento. A película utilizada não possui defeitos como riscos e pelos e certamente a qualidade de imagem é superior ao que se tinha anteriormente em DVD. A única maneira de termos uma imagem ainda melhor seria uma restauração na película original e uma nova transferência em 4K ou 8K. Tendo em vista o alto custo deste processo e o público restrito deste tipo de filme, não veremos algo assim acontecer tão cedo (para não dizer nunca).

Áudio

Temos seis faixas de áudio no disco, sendo três em inglês e três em italiano. O padrão de ambos é o mesmo: uma trilha DTS-HD Master Audio 7.1, uma trilha Dolby Digital EX 5.1 e uma trilha Dolby Digital 1.0 para os puristas.

As faixas multicanal não possuem uma mixagem muito agressiva, ou seja, o uso do surround é discreto e restrito à música, ambiência e a alguns efeitos sonoros. Os diálogos são claros e restritos, na maior parte do tempo, ao canal central. O subwoofer não é muito exigido, apenas mostrando sua presença em poucos efeitos como tiros e principalmente nos sons de tambores. Na comparação entre as faixas DTS-HD e DD, as trilhas lossless se mostram superiores, mas não se destacam tanto assim das faixas lossy (algo que ocorre com frequência em outros títulos).

Em resumo, não espere o mesmo impacto sonoro presente em filmes mais novos. A idade e o estado de conservação dos elementos originais certamente têm sua parcela de culpa pelo resultado final; mesmo assim,  o áudio é bastante aceitável, principalmente por respeitar o estilo característico do filme, que foca mais no suspense do que na ação.

Legendas

No filme, temos uma boa seleção de legendas, incluindo uma em português brasileiro. Além da legenda em inglês para deficientes auditivos e a em português já citada, temos também legendas em espanhol, francês, japonês, alemão, chinês, coreano, tailandês e inglês para acompanhar o áudio em italiano. Para um produto voltado para o mercado norte-americano anglófono, a Blue Underground superou todas as expectativas e está de parabéns.

Extras

Existe uma grande quantidade de extras nesta edição de Zombie. Para o leitor não-fluente em inglês, fica a decepção: nenhum deles possui legendas em nosso idioma, que estão restritas somente ao filme. Para ser mais preciso, não há nenhum tipo de legenda nos extras, exceto nos depoimentos em italiano, quando aparecem legendas automáticas em inglês.

A grande maioria dos extras se concentra no disco 2, mas no disco 1 também temos algum material adicional:

  • Introdução por Guillermo del Toro (em HD): uma rápida introdução do diretor mexicano, mostrando o quanto ele aprecia o filme.
  • Comentários em áudio com o ator Ian McCulloch e com o editor da revista Diabolik Magazine Jason J. Slater: trilha com alguns momentos interessantes, mas no geral um tanto quanto burocrática. A participação de Ian McCulloch é um ponto negativo, pois com frequência está falando um assunto totalmente desconexo com a cena que estamos vendo. Fora que o ator parece nunca ter visto o filme no qual ele participou, fato comprovado na famosa cena da farpa de madeira. Jason Slater por vezes tenta passar alguma empolgação ao seu colega de comentários, mas com pouco sucesso. Seria muito melhor se a faixa fosse feita com Guillermo del Toro, notadamente apaixonado pelo filme e plenamente qualificado para tecer comentários muito úteis a respeito da obra.
  • Trailers de cinema (em HD): temos tanto o trailer internacional (3 min 45 seg) quanto o americano (1 min 33 seg). Servem como curiosidade apenas. O trailer americano mostra um aviso curioso informando aos espectadores que serão oferecidos sacos de vômito (iguais aos oferecidos em aviões) devido ao conteúdo do filme.
  • 2 spots de TV (em SD): ambos em torno de 30 segundos. Também mera curiosidade.
  • 4 spots de rádio: curtos (30 segundos em média) e divertidos, graças ao exagero do locutor.
  • Galeria de imagens (em HD): extra normalmente tedioso, mas não é o caso aqui. São 9 minutos com imagens dos posteres de cinema (incluindo o brasileiro), lobby cards, kits de imprensa e capas de CDs, VHS e DVD (não incluíram o brasileiro), tudo com excelente qualidade visual e embalado pela trilha sonora de Fabio Frizzi.

Para compensar a falta de material de época, a Blue Underground produziu conteúdo exclusivo para esta edição, o que é absolutamente louvável. Estes extras, todos em HD, estão no disco 2 e são os seguintes:

  • Zombie Wasteland: curto (22 min) documentário cobrindo uma convenção em Cleveland realizada em 2010. Contém entrevistas do dublê Ottaviano Dell’acqua (que “interpretou” o zumbi que aparece na capa) e dos atores Ian McCulloch, Richard Johnson e Al Cliver. Ao contrário da puxação de saco de praxe neste tipo de documentário, há espaço para uma lavadinha de roupa suja, com depoimentos a respeito da misoginia de Lucio Fulci e da esbórnia que acontecia fora das filmagens. Mesmo assim, é o extra mais fraco do disco
  • Flesh Eaters on Film: entrevista de 10 minutos com o co-produtor Fabrizio de Angelis. Curta, mas esclarecedora.
  • Deadtime Stories: entrevistas com os roteiristas Elisa Briganti e Dardano Sacchetti. Com 14 minutos de duração, também esclarece alguns detalhes por trás do filme.
  • World of the Dead: entrevistas com o diretor de fotografia Sergio Salvati e o designer de produção Walter Patriaca. Mais uma bom extra, com 16 minutos, explorando mais detalhes da produção.
  • Zombi Italiano: entrevistas com os especialistas em efeitos de maquiagem Gianetto de Rossi e Maurizio Trani e com o artista de efeitos especiais Gino de Rossi. O melhor extra do disco, com informações muito interessantes sobre os excelentes efeitos utilizados no filme.
  • Notes on a Headstone: entrevista com o compositor Fabio Frizzi. Esperava mais, pois normalmente os compositores de trilhas sonoras dão depoimentos interessantes a respeito dos filmes. Não é o caso aqui; a curta duração (7 minutos) também é um ponto negativo.
  • All in the Family: entrevista com Antonella Fulci, filha do diretor Lucio Fulci. Com uma duração de 6 minutos, não há muito tempo para que ela consiga dar maiores detalhes a respeito do pai. Uma pena, pois ela certamente conheceu um outro lado do mestre Fulci, ao qual poucos tiveram acesso.
  • Zombie Lover: entrevista com o diretor Guillermo del Toro. Mais do que simplesmente tecer loas ao seu filme favorito, em 10 minutos ele nos mostra um jeito diferente de observar o filme, se aproveitando do próprio conhecimento adquirido como profissional da área e indo além do que se espera de um fã comum. Excelente material.

Conclusão

Para quem tinha o DVD nacional (ou mesmo o importado), o upgrade certamente é recomendado. Uma boa apresentação, bastante conteúdo extra (embora sem legendas) e uma qualidade superior de som e imagem. Para aqueles que ainda não têm este filme na coleção, não percam mais tempo: o filme é imperdível e a edição da Blue Underground foi feita com capricho suficiente para não desapontar fãs e colecionadores. Recomendado!

[Fontes de consulta utilizadas: DVD Beaver, DVD Talk e Blu-ray.com]

Link para a edição na Amazon:

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Sobre o autor

Alexandre Prestes era rato de locadora nos anos 80 e nunca se animou a comprar VHS por ser uma mídia de baixa durabilidade. Fã incondicional da boa música, iniciou em 2003 sua coleção com DVDs musicais; só a partir de 2005 passou a comprar filmes e séries. 2009 foi o ano no qual começou a colecionar filmes em Blu-ray, sendo um entusiasta do formato. A coleção continua crescendo (e o espaço diminuindo), cada vez mais a favor de títulos com maior qualidade técnica e fartura de material adicional.