EXCLUSIVO: BJC entrevista Hegel Braga da FOX!

Foto do Diretor de Marketing Hegel Braga da Fox
O Diretor de Marketing da Fox, Hegel Braga na sede da empresa

No último dia 9 de setembro o BJC esteve na sede da 20th Century Fox do Brasil em São Paulo para entrevistar seu Diretor de Marketing Hegel Braga e conhecer alguns de seus lançamentos no país. Demorou um pouco, mas finalmente publicamos esta matéria, que teve como objetivo não só falar sobre as novidades, mas tirar todas as dúvidas que ainda restavam da entrevista de 2010 esclarecendo de maneira mais demorada alguns pontos.

Acredito que esta seja a melhor entrevista já publicada no BJC. As primeiras perguntas foram mais genéricas, falando de mercado e de algumas atitudes mais gerais da Fox, para depois entrarmos em questões mais pontuais de produtos específicos. Todas as perguntas foram elaboradas pela equipe do BJC, e nenhuma delas deixou de ser respondida.

Deixo aqui mais uma vez o agradecimento a todos da Fox e da agência Cinnamon por esta grande oportunidade e pelo canal de comunicação que se abriu a partir dessa entrevista, comprovando o que todos colecionadores estão percebendo: a Fox mudou e mudou para melhor.

Blog do Jotacê – Como está o mercado de home video no Brasil? Os produtos para locação continuam tendo suas vendas em queda?

Hegel Braga – O mercado de rental já teve uma participação maior no mercado do que ele tem hoje em dia no Brasil. O nosso país ainda é um dos lugares onde o mercado de locação ainda é mais forte no mundo, só perdendo para o Japão em número de transações (compra/aluguel). Então, ainda é um negócio muito importante, continuará sendo importante durante muito tempo. Pode um dia se transformar, como está agora com a distribuição digital. Mas a boa notícia é que, de um ano pra cá, ele parou de cair. Tivemos uma queda muito forte nos últimos quatro anos, mas no último ano houve uma estabilização.

O Blu-ray é, em parte, responsável por isso, ajudando a estancar essa queda e a fazer alguns consumidores que tinham abandonado as locadoras, por uma série de motivos (deslocamento, tempo, atendimento de qualidade duvidosa). O poder aquisitivo da população ter aumentado nos últimos anos de alguma forma interferiu também. As pessoas começaram a ter dinheiro pra sair pra jantar, viajar, comprar bens duráveis. Então, apesar de ter mais dinheiro, ele está direcionado para outras atividades. Toda essa mudança teve um impacto no rental.

BJC – E os produtos para venda direta? Crescem quanto no país?

HB – O varejo de DVDs e Blu-rays está crescendo muito rápido. Crescemos ainda em taxas de países desenvolvidos (dois dígitos). Entre 12% e 15% ao ano, e isso representa o aumento do hábito do consumidor comprar o produto. E isso se deve a maior disponibilidade de promoções, pois virou um hábito a pessoa entrar numa loja e encontrar ofertas 2 por 1, 3 por 2, o que ajudou bastante. A Fox foi uma das pioneiras, em 2007, nessa estratégia de promoções no catálogo de Blu-rays e hoje todos os estúdios trabalham com esse tipo de promoção programada mensalmente. E isso estimulou o mercado de alguma forma, junto com o aumento do poder aquisitivo da população.

BJC – Depois de uma era de produtos de baixa qualidade (estojos slim e envelopes de papelão), que levou o BJC a lançar a campanha “Me Respeite Fox“, a empresa deu a volta por cima e hoje é uma das que mais aposta em produtos de qualidade. O que levou a Fox a tomar aquelas decisões?

HB – Eu gostaria antes de falar sobre o envelope de papelão, pois eu acho que a informação correta não chegou até vocês. Acho que é fundamental esclarecer isso, apesar de ser um assunto que já é passado: aquele projeto foi um teste que a gente fez com o objetivo de expandir a distribuição para classe C, D e E, para que o produto pudesse chegar nos lugares mais distantes do interior do país, onde não existe distribuição de DVD. O custo do nosso produto é muito alto e fizemos uma aposta para ampliar os pontos de venda. O objetivo era vender, por exemplo, no checkout de um supermercado no interior da Bahia. Nunca se pensou ou sequer passou pela nossa cabeça de substituir ou mesmo tentar seduzir o público colecionador leitor do BJC a comprar aquilo.

O slim foi uma tentativa, nós queríamos fazer uma coisa diferente. Fizemos uma pesquisa aqui em São Paulo e Rio de Janeiro e os consumidores nos ajudaram a tomar uma decisão errada. Uma decisão ruim, que nós já revisamos e paramos de fazer. Não houve um abraço do mercado como imaginávamos. Acabou que o nosso produto ficou pior que o da concorrência, tanto que é uma coisa que já abortamos.


Do slim ao gift set, essa é a Fox de 2011

BJC – O que aconteceu nestes últimos meses para que essa virada na qualidade dos produtos da Fox pudesse acontecer?

HB – Não houve uma grande mudança na Fox para que tivéssemos essa mudança citada por você. Nós só começamos a prestar mais atenção neste público que é ávido por este tipo de produto de coleção. Esse público amadureceu, ganhou espaço no mercado e, com o maior poder aquisitivo, começou a comprar edições premium.

BJC – Nos conte um pouco sobre o início da distribuição de Blu-rays no Brasil pela Fox. Como foi que tudo começou?

HB – Em dezembro de 2007, nós fizemos a primeira importação de Blu-rays (inclusive sem legendas em português). Era produto importado, pois a gente percebeu que tinha demanda, mas não tinha CMF (Cutting Master Format) com opções em português lá fora e era impossível produzir algo no Brasil. Mesmo assim, conversamos com os nossos clientes (lojas especializadas em home video) que eram (e ainda são) o principal foco de Blu-ray e eles estavam importando direto, sem intermédio da Fox Brasil. Então percebemos que deveríamos importar os discos mesmo assim, fazendo um trabalho de marketing local. Então, a primeira major a realmente distribuir os produtos no Brasil foi a Fox.

BJC – Quais títulos 3D já foram lançados e quais estão previstos para os próximos meses?

HB – Estamos apostando, por enquanto, com quatro títulos apenas. Em julho começamos com Rio, Era do Gelo 3, Viagens de Gulliver e o Nárnia 3. Ainda esse ano, em dezembro, lançamos Glee 3D. Temos programado para o ano que vem, em abril, o Avatar 3D (que já existe, mas é exclusivo dos produtos Panasonic), no mesmo mês que Titanic chega às telas do cinema, aproveitando o gancho de um filme do mesmo diretor. Ao longo do ano termos também (ainda sem data) Eu Robô em 3D e The Darkest Hour.

BJC – Mesmo com esse avanço elogiável, principalmente no mercado de Blu-rays, a Fox ainda tem como principal crítica a descontinuação de séries em DVD. Já que o Brasil é um dos únicos países que a venda de DVDs ainda cresce, o que pode ser feito para que títulos importantes (como Angel e Buffy, por exemplo) possam voltar ao mercado e reverter essa situação?

HB – No momento não há como retomar estes lançamentos, não existe nenhum plano concreto. Temos um custo de legendagem e de dublagem que, muitas vezes, não estão feitos. Temos custos de Ancine, em que temos que pagar um custo muito alto por episódio, fora a produção do título. Quando você já parte de um custo fixo muito alto, o lançamento fica inviabilizado. Então depende da gente equacionar isso, ao mesmo tempo que deve se encontrar um canal que vai comercializar isso. Recebemos [pedidos] de muitos interessados nessas séries descontinuadas, mas a gente não tem como vender diretamente para essas pessoas. Eu preciso ter um parceiro comercial que aposte e faça uma tiragem mínima para oferecer para estas pessoas. Então, não depende só da gente, depende do canal de distribuição para conseguir chegar lá na ponta final, que é o consumidor.

Nós também ficamos frustrados com o cancelamento das séries pois, antes de mais nada, como trabalhamos com marca, queremos a satisfação dos nossos clientes. Pedimos desculpas, pois sabemos que não conseguimos atender a demanda de todo mundo, mas precisamos por vezes tomar a decisão de não lançar certas coisas.

BJC – Mas existe alguma maneira viável para que o público possa se mobilizar e conseguir que essa situação seja revertida?

HB -A ideia é procurar o varejo, principalmente os grandes magazines online, para mostrar que existe demanda para esse produto. Com isso, podemos desenvolver um projeto de lançamento, cada um pode contribuir para que isso seja realizado, tanto o consumidor, como a Fox e seus parceiros no varejo.

BJC – Existe um boato que Star Wars e Simpsons seguem um padrão de apresentação imposto pelos seus criadores. Isso é verdade?

HB – Sim é fato que é imposição. A Fox aqui no Brasil é uma empresa que distribui material audiovisual. Muitas vezes, quando estamos cumprindo este papel, nosso cliente é o George Lucas (no caso de Star Wars). Então, se ele determina certas coisas em relação ao lançamento de seus produtos…

A mesma coisa acontece com Simpsons, em que a Gracie tem total domínio sobre a franquia e sobre os produtos; o uso de imagem deles é extremamente complicado, impedindo que a gente faça certas coisas, pois tem que passar pela aprovação deles. Além de Simpsons e Star Wars, temos os produtos de James Cameron (Avatar e Titanic, por exemplo) que também merecem tratamento especial.

BJC – O que acontece exatamente quando temos uma produção redublada, ou com mudança nos dubladores?

HB – Se seguirmos todas as leis, temos uma série de limitações. Nós, estúdios, como empresas grandes, com ações em bolsa de valores, temos que respeitar absolutamente a lei. Então, se existe um entrave jurídico envolvendo uma trilha de dublagem com um dos dubladores, por qualquer motivo que seja (erro nosso ou uma demanda errada dele), não posso usar aquele material. Já aconteceu aqui na Fox de não ser possível usar a dublagem, como em filmes que temos que redublar por que houve algum problema no caminho. Ou quem fez a primeira dublagem não pagou os direitos, ou quando a dublagem vai para outra mídia não conseguimos chegar a um bom termo na negociação. Então, não podemos simplesmente ignorar isso e depois “vamos ver o que vai acontecer”. Temos responsabilidade e temos que tomar todos os cuidados neste sentido.

BJC – Já tivemos uma maleta 007 exclusiva do Brasil, assim como a caixa bomba de 24 Horas e muitas outras em DVD. Por que existe essa diferença entre as majors que dependem muito de decisões da matriz (como no caso de Warner e Paramount) e a Fox que pode lançar produtos exclusivos?

HB – Não posso falar das outras empresas, mas o que eu posso dizer é que a Fox tem liberdade de investir em determinadas coisas ou de trazer determinadas edições ou em fazer promoções. Obviamente, existe um alinhamento, temos uma equipe de marketing internacional que cuida de tudo. Temos uma divisão “doméstica”, que cuida de Estados Unidos e Canadá, e uma outra divisão completa que é a internacional. E essas duas divisões se reportam à mesma pessoa, que cuida metade do tempo de cada coisa, que tem quase o mesmo tamanho cada. Existe também uma equipe de marketing de catálogo em Los Angeles, uma equipe de séries de TV e que passam pra gente os guidelines globais.


O Tianic fake. Por que não?

BJC – A Fox Brasil tem autonomia para decidir sobre estes e outros lançamentos?

HB – Evidentemente temos autonomia; numa discussão sobre estratégia, mostrar se vale a pena ou não lançar determinados produtos e também de sugerir novidades. Nas reuniões que temos, esse canal é muito franco e muito aberto para este tipo de debate. Eles escutam o que temos a dizer e se preocupam em entender a realidade do nosso mercado. Então, quando a gente leva algumas sugestões, elas são acatadas. Inclusive, pegando o gancho do box fictício de Titanic [mostrado aqui no BJC], é uma coisa que podemos apresentar sem problema algum. Poderíamos entrar em contato com o autor e ver a possibilidade de tornar aquilo real, tanto em escala nacional quanto mundial. Já aconteceu várias vezes de propormos e o produto ser aprovado, como a caixa bomba de 24 Horas ou a caixa de pôquer da coleção Western que foram criadas aqui no Brasil (sem falar no arquivo de Arquivo X).

Enfim, então a gente tem liberdade de veto, de propor coisas novas e por outro lado temos que seguir algumas coisas como, por exemplo, Avatar.

BJC – Por que diversos títulos em Blu-ray estão saindo sem legendas nos extras, sendo que vários destes extras já tinham sido legendados na versão em DVD (como no caso de A Noviça Rebelde)?

HB – Sinceramente, não sei dizer por que isso acontece. Em certas ocasiões os extras possuem o mesmo nome mas o conteúdo deles é diferente e por isso não estão legendados. Mas isso nunca acontece de propósito, para “sacanear” o consumidor.

BJC – Quando teremos autoração local dos Blu-rays da Fox?

HB – Acredito que ainda vai demorar para que isso aconteça, principalmente com os títulos internacionais que são lançados mundialmente, que dão sentido de se fazer uma coisa mais centralizada e que se fizéssemos aqui seria trabalho dobrado. Agora, nas produções nacionais, eu acredito que mais um ano a gente consiga fazer aqui sim. Hoje até as produções nacionais estamos autorando lá fora.

BJC – Por que Nosso Lar foi autorado lá fora e sem áudio HD, algo fora dos padrões da empresa?

HB – Não tivemos autorização da nossa equipe técnica de controle de qualidade. Apesar de existir boas empresas de autoração séries e com qualidade  no Brasil, ainda não conseguimos homologar nenhuma edição aqui. A autoração de Assalto ao Banco Central, filme nacional da Fox, também será feita em Los Angeles. Temos a intenção de fazer aqui, é um debate que temos com a matriz, mas que ainda não vencemos.


Coleção Rocky em Blu-ray no Brasil: já passou da hora!

BJC – Quando teremos o lançamento da coleção Rocky em Blu-ray no Brasil?

HB – Ainda não temos previsão, pois não temos o disco do primeiro filme com opções em português lá fora. Estamos aguardando uma posição da nossa matriz sobre a legendagem e dublagem dele. Por isso que ainda não temos esse produto em box oficial no Brasil.

Além disso, no ano passado tivemos a questão da MGM; não sabíamos se ainda seria distribuído pela Fox, e daí eles seguraram a produção desse CMF para todos os territórios. O Robocop é o mesmo caso, estamos aguardando a liberação do primeiro filme para lançar o box.

BJC – Qual a dificuldade em se lançar a versão do diretor do filme A Cruzada no Brasil, tanto em DVD quanto em Blu-ray?

HB – Se não estou enganado, a versão estendida de A Cruzada foi feita apenas para o mercado “doméstico” (Estados Unidos e Canadá). Os outros territórios apenas ficam com a versão de cinema, por isso não podemos lançar aqui.

BJC – O Ovo Alien em Blu-ray esgotou praticamente na pré-venda no Brasil. Como a Fox vê esse mercado de colecionáveis especiais agora com o lançamento de Star Wars com apresentação internacional?

HB – Sempre existiram planos de trazer edições especiais lançadas em âmbito internacional pela Fox, mas não conseguíamos trazer pois, em primeiro lugar, não havia essa clareza que existia um público configurado e interessado nisso aqui no país. E segundo, aconteceu uma mudança no câmbio que também permitiu essa prática e nós temos que levar isso em consideração. Então, hoje conseguimos viabilizar a importação de edições com embalagens importadas (fabricadas na China), que até pouco tempo atrás não era possível por uma questão cambial.

O Brasil tem característica de impostos pesados sobre importação. A política tributária muitas vezes inviabiliza o lançamento de produtos dessa natureza. Já tivemos a oportunidade de lançar um produto mas que, por todos os custos, custaria mil reais, uma coisa que se a pessoa conseguir comprar no exterior ele vai pagar metade do preço. Então comercialmente se torna inviável.

BJC – Quais fatores ainda atrapalham a expansão desse tipo de produto no país?

HB – O fato de ter uma carga tributária pesada (ICMS, etc.), não é única razão para atrapalhar este tipo de lançamento, até porque isso faz parte das regras comerciais do país e que afeta toda a cadeia produtiva e todas as empresas. Se a Fox tem esse problema, a Philips também tem, a Sony também. Agora, quando você está falando de um produto importado, temos os custos de transporte, de seguro, e por vezes a própria cadeia produtiva não permite que você possa reimportar isso via Manaus, pois a fábrica não tem como absorver isso, pois está preparada para trabalhar de outra forma, etc. Então temos um conjunto de coisas que encarece a cadeia.

Aliado a tudo isso, o volume (da tiragem) é pequeno. Quando estamos falando dessas edições super especiais, as maiores são de 1500 peças. O ovo Alien foi um caso especial pois teve tiragem de 1000 peças e acabou praticamente na pré-venda, mas ali tivemos uma margem de lucro muito pequena, e optamos por isso para que ele tivesse um papel de disseminar a divulgação da Antologia Alien em Blu-ray.

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Edições especiais lançadas pela Fox no Brasil na Saraiva:

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Sobre o autor

Jotacê é viciado em DVDs desde 2004 (começou tardiamente, na idade do metal discóide furado). Hoje em dia compra poucos DVDs para investir mais nos discos do raio azul (que coleciona desde 2008). Resolveu ter um site em 2008 para que fosse possível publicar tudo o que pensava sobre os disquinhos lançados no Brasil. E cá estamos nós! Twitter | YouTube | Flickr | Coleção