Dossiê do BJC – Executivos que “executam” nossas coleções

American_PsychoAcho que vocês se lembram deste episódio

Aposto que você, caro colecionador, sempre se perguntou “porque diabos as empresas de home video brasileira aprontam tanto?”. Uma suspeita foi que os executivos que tomam as decisões mais críticas não entendem direito o produto que vendem, tampouco o consumidor que adquire esses produtos (ou seja: nós). Primeiramente, com o intuito de demonstrar esta hipótese, reunimos neste artigo algumas das pérolas proferidas na imprensa por esses executivos que escolhem o que nós iremos (ou não) comprar. Depois, iremos descobrir que muitos desses executivos são oriundos de outras áreas, o que não é bom para nós colecionadores. Iniciemos os trabalhos então!

Caso nº 1: Blu-rays importados que “não têm legendas em nosso idioma

Em seu número 215 (Junho/2011), a revista VerVídeo, voltada ao mercado de locação, traz uma esclarecedora entrevista com dois executivos da Focus/Flashstar: o diretor comercial Alexandre Freire e o gerente de marketing Afonso Fucci. Nesta entrevista, vimos que esses executivos simplesmente não sabem que existem títulos importados em nosso idioma. Vejamos (os grifos são meus):

Ver Vídeo: Outra forma de crime que tem aparecido com mais frequência na mídia é que alguns locadores têm comprado e alugado Blu-rays importados. O que pensam sobre isso?

Freire Alexandre Freire: Não vejo até que ponto isso pode afetar nosso mercado, já que os Blu-rays importados não vêm com legendas em português. Talvez esse tipo de mídia possa funcionar com shows, mas para filmes duvido que tenha potencial, justamente pela legenda. Nenhum outro país coloca legendas em português brasileiro, pois o número de pessoas no mundo que entendem essa língua é muito baixo. O número de países que falam português não se compara ao número de países que falam inglês ou francês, por exemplo.

Fucci Afonso Fucci: Algumas locadoras já faziam isso com DVD e esse tipo de material tem público específico, que fala e lê fluentemente outra língua – o que hoje representa uma parcela ainda pequena. Não estamos defendendo essa política, afinal, não é um negócio legal, mas também não cremos que isso seja a razão por nosso mercado não estar indo bem.

O Sr. Freire demonstrou ignorância em dois campos. O primeiro é a força de nosso idioma. O Português possui mais de 240 milhões de falantes no mundo, estando no mínimo entre as 10 mais faladas. Mas este é o menor dos problemas; pior mesmo é ignorar que não só existem Blu-rays estrangeiros com legendas (e até áudio) em nossa língua, como também esses títulos são, na imensa maioria das vezes, edições superiores.

Esses dois não devem conhecer sites como o BJC e o Blu-rays Legendados, porque se soubessem a quantidade de filmes com legendas ou áudio em português vendidos na Europa e nos EUA, entenderiam que os Blu-rays importados são sim uma ameaça aos negócios das empresas onde trabalham (prestou atenção, Sr. Fucci?), caso estas não melhorem (e muito) a qualidade dos produtos que põem no mercado.

E antes que alguém avente a possibilidade desses dois senhores estarem praticando uma espécie de FUD no mercado (no popular: fingindo-se de tontos), o BJC confirmou que eles realmente não conhecem patavinas a respeito de Blu-ray. As trapalhadas com o Blu-ray de Akira são a prova cabal deste fato.


Akira sem áudio HD no Brasil: uma das maiores execuções que já sofremos.

Caso nº 2: A volta do Efeito Tostines

Na mesma entrevista do caso anterior, Alexandre Freire mostra que precisa entender melhor o consumidor que compra os produtos da Focus/Flashstar. Leiamos (mais uma vez, os grifos são meus):

Ver Vídeo: Como é definido qual título será lançado em Blu-ray também? Quais critérios vocês utilizam na hora da escolha?

Freire 2Alexandre Freire: Primeiro avaliamos o material que temos. O filme para ter potencial para Blu-ray deve ter sido gravado em HD, com qualidade de imagem e som.
.
.

Pergunta: Então por que, na hora de lançar um título com imenso potencial, a Focus me sai com um título sem áudio em HD e com inúmeros problemas na autoração?

Ver Vídeo: Como foi a aceitação do mercado em relação aos Blu-rays?

FreireAlexandre Freire: Eu esperava mais dessa mídia. As vendas não estão satisfazendo nossas expectativas, mas pelo que sei são números do mercado. Mesmo com preços mais baixos, como R$ 29,90, o consumo não tem sido como esperávamos. Se baixarmos mais ainda o preço, não teríamos retorno algum, então estamos engessados nesse ponto.

Então isso significa que investir no binômio “baixo preço-baixa qualidade” é um tiro no pé, conforme já discutimos em artigo anterior.  Aprendam senhores: produtos melhores têm margens de lucro melhores. O colecionador não procura preços baixos, mas sim preços justos e produtos de qualidade. Se não podem baixar mais os preços, passem a investir melhor no produto que vendem.

Caso nº 3: o Blu-ray que deveria ser quadrado

Não, meus caros. Não estou de brincadeira com vocês! Na VerVídeo 213 (Abril/2011), o presidente da Videolar, Phillip Wojdyslawski, veio com a seguinte preciosidade (grifos meus, como sempre):

Ver Vídeo: O que é observado, de um modo geral, é que muitas pessoas ainda não conhecem a capacidade e as diferenças do Blu-ray para o DVD.

Phillip Phillip Wojdyslawski: Eu já disse diversas vezes que o grande problema do Blu-ray é que ele é redondo e se parece com um DVD. Poderiam ter feito com o formato diferente, cor ou qualquer outra coisa. A pessoa precisa da referência da mudança. Se o Blu-ray fosse quadrado, por exemplo, isso sim seria mais palpável. Até a pessoa perceber que o que existe é uma diferença na qualidade, na capacidade e no conteúdo, demora. Afinal, a mudança não é tátil, perceptível assim, só no toque.

Desculpe ser chato, Sr. Wojdyslawski, mas existe sim um diferencial físico no Blu-ray: o estojo! Sim, aquele que é azul, menor que um estojo de DVD, tem um logotipo prateado estampado e que é fabricado pela empresa que o senhor comanda!

O problema na adoção do Blu-ray é que o cidadão comum está satisfeito com a qualidade do DVD. Mesmo que o Blu-ray fosse no formato de uma banana, o consumidor leigo ainda compraria o DVD porque ele está acostumado com o formato e porque não precisa investir em novos equipamentos. Simples assim.

quico Rá! Rá! Rá!

Caso nº 4: Universal e as enchentes

27 de Abril de 2010. Casa Petra. Local da cerimônia de entrega do VI Prêmio Destaque Jornal do Vídeo/Microservice, a maior premiação do mercado de home video brasileiro. Durante a cobertura do evento, tivemos uma hilária entrevista com o Diretor de Marketing da Universal, Marcelo Bermudez, onde este executivo afirma que as enchentes são um fator que necessita ser avaliado nas decisões da empresa. Vejam a entrevista a seguir (detalhe para o cinegrafista mais preocupado em filmar as belas moças ao fundo do que o próprio entrevistado):

Quer dizer que são as enchentes que fazem a Universal não lançar Tropa de Elite em Blu-ray até hoje? Foram as chuvas que levaram o disco de extras da edição em Blu-ray de Gladiador? Quem sabe as águas de Março lavaram o texto da lombada do BD de Arraste-me para o Inferno. Como se dizia antigamente, “desculpa de aleijado é muleta”, Sr. “Permudes”!

Caso nº 5: Executivos que nunca trabalharam com home video

Deixem-me contar uma história primeiro. Em 1983, John Sculley, então presidente da Pepsi, foi convidado por Steve Jobs para se tornar presidente da Apple. Acostumado a vender refrigerante, Sculley tentou utilizar as mesmas técnicas para vender computadores. Resultado? Dez anos depois, após quase ter levado a Apple à falência, Sculley é apeado do cargo. Moral da história: se você entra em outro mercado, precisa entender o produto e seu consumidor.

O nobre leitor pode estar pensando onde este colunista deseja chegar. Calma, já explico. Vários dos executivos das empresas de home video brasileiro são egressos de outras áreas. Alguns exemplos:

  • Marcelo Bermudez: conforme se vê em seu perfil no LinkedIn, o homem das enchentes trabalhou antes no Santander e na Natura;
  • Hegel Braga: o diretor de marketing da Fox foi diretor de operações das Revistas Coquetel (Ediouro), como se vê no perfil do LinkedIn do executivo;
  • Manoela Daffre: a nova gerente de marketing da Universal é egressa do marketing esportivo, como se lê na revista Jornal do Vídeo nº 319;
  • Tatiane Olivieri: na Jornal do Vídeo 319 também descobrimos que a nova gerente de operações da Universal trabalhara anteriormente na HP e no Unibanco.

Novos funcionários da Universal vieram de outros mercados. (fonte: Jornal do Vídeo nº 319)

Compreendam: a intenção aqui não é reclamar por reclamar. O fato desses executivos terem vindo de outras áreas de atuação não é, por si só, um demérito. Em tese, nada impede um recém chegado ao segmento de home video de fazer um bom trabalho, assim como um executivo que está há tempos neste mercado não necessariamente acertará sempre (Afonso Fucci trabalha há 18 anos na Flashstar, por exemplo). Experiência é algo sempre bem-vindo em qualquer profissional. O problema é quando se confia demasiadamente na experiência adquirida em outras empresas e se esquece de estudar as nuances deste novo mercado onde trabalharão.

Isso porque o mercado de home video tem características únicas que o torna distinto de outros mercados. O público que consome este tipo de produto tem exigências específicas, é bem informado e não tolera desrespeito. Confundí-lo com consumidores de outros produtos pode significar tomar decisões erradas que podem atrapalhar os negócios da empresa, como John Sculley fez na Apple. A Universal e sua demora em entrar com força no mercado de Blu-rays que o diga.

Portanto, senhores e senhoras que ocupam cargos importantes nas produtoras, distribuidoras e replicadoras, não encarem este artigo só como uma crítica, mas também como um conselho. Nós do BJC batemos sempre na mesma tecla porque achamos que existe sim espaço para melhora e são vocês que tomam as decisões. Não se esqueçam que, com o ocaso das locadoras, os colecionadores seremos a base sobre a qual as empresas onde vocês trabalham se sustentam. Então, não se esqueçam de nós.

---------------------------------------------------
Edições especiais em Blu-ray de clássicos do cinema recomendadas pelo BJC
(todos com legendas e áudio em português brasileiro):

Dificuldades em comprar na Amazon? Visite o nosso Guia de Compras no Exterior!

Categorias: ArtigosBlu-rayDVDProtestos

Tags: , , , , ,

Sobre o autor

Alexandre Prestes era rato de locadora nos anos 80 e nunca se animou a comprar VHS por ser uma mídia de baixa durabilidade. Fã incondicional da boa música, iniciou em 2003 sua coleção com DVDs musicais; só a partir de 2005 passou a comprar filmes e séries. 2009 foi o ano no qual começou a colecionar filmes em Blu-ray, sendo um entusiasta do formato. A coleção continua crescendo (e o espaço diminuindo), cada vez mais a favor de títulos com maior qualidade técnica e fartura de material adicional.